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Pico da Bandeira: dicas para subir | Parque Nacional do Caparaó

Em abril fomos para o Parque Nacional do Caparaó e subimos o Pico da Bandeira, o terceiro ponto mais alto do Brasil! Vem ver todas as dicas dessa caminhada desafiadora de 14km que você precisa fazer uma vez na vida.

 

 

O Parque Nacional do Caparaó

O parque tem duas portarias, uma na cidade de Alto Caparaó/MG e uma no ES. No mês que fomos (abril/17) não estava sendo cobrada a entrada e nem taxa de camping. Vale a pena se informar no site oficial sobre a cobrança antes de ir. Hoje o valor é R$ 16 por pessoa para entrada + R$ 18 por pessoa para o camping.

Para acampar, é preciso fazer uma reserva antecipada através do site informando a quantidade de pessoas. O parque fica aberto até as 18h para entrada. É possível chegar de carro até a Tronqueira, o primeiro camping. De lá até o segundo camping, Terreirão, somente a pé.

Há 3 “momentos” pra subir até o Pico:

  1. Durante o dia, saindo cedinho e voltando no final da tarde, sem necessidade de acampar;
  2. Para ver o sol nascer, primeira opção: acampar na Tronqueira e sair a meia noite (6,9km de caminhada até o Pico);
  3. Para ver o sol nascer, segunda opção: acampar no Terreirão e sair em torno de 2h da manhã (3,2km até o Pico).

DICA: Não suba o pico no mesmo dia que chegar de viagem. É legal chegar em um dia, descansar, conhecer a cidade, pra no dia seguinte se preparar para subir o Pico. Nós fomos em uma quinta, subimos o Pico de sexta pra sábado e voltamos pra casa no domingo.

 

O acampamento na Tronqueira

Nós planejamos o “momento” 3, porém quando chegamos no Parque descobrimos que o acampamento do Terreirão estava interditado. Ficamos no acampamento da Tronqueira, que fica a 6km de carro da portaria. A estrada é chatinha, com muitas curvas e trechos que derrapam. Se estiver chovendo fica difícil subir.

Estrada até a Tronqueira
Estrada até a Tronqueira

Saímos da pousada umas 16:30h pra ir pro Parque. Chegamos em torno de 17h na Tronqueira e montamos nossas barracas. A área de camping não é muito grande. Quando fomos, tinha umas 30 barracas espalhadas.

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Há algumas mesas de piquenique (bem disputadas), banheiros (limpos, mas sem energia elétrica), pias e um mirante. Há funcionários do parque que controlam a quantidade de barracas e pessoas passando a noite.

Chegamos a tempo de ver um por do sol maravilhoso.

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Nos acampamentos não é permitido fazer fogueira nem acender churrasqueiras com carvão. Tivemos que comprar um fogareiro de última hora pra cozinhar nossa janta de cup noddles. Só que mal deu pra isso: na segunda “leva” de cup noddles o fogareiro começou a vazar álcool e tivemos que apagar. :(

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Entramos em nossas barracas umas 19h e cochilamos até 23:30h, quando levantamos e nos preparamos pra subida. Não espere silêncio: ouvimos roncos super altos e gente conversando todo o tempo. :P

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Na hora de sair estava frio, mas não um frio insuportável. Eu estava com uma blusa de lã, uma segunda pele e um casaco forrado bem grosso. Além de touca, luva, 2 calças legging, uma meia calça grossa e meia de lã. Mas não era um frio insuportável porque logo que começamos a andar já tiramos algumas peças. O Adriano subiu praticamente tudo só com uma blusa de manga de andar de moto :P

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DICA: os campistas deixam as barracas montadas no acampamento com suas coisas dentro (claro que não é bom deixar coisas de valor, deixe no carro). Deixamos nossas barracas por lá e arrumamos mochilas pra caminhada: lanches, água, blusas a mais, cobertor, lanterna etc).

Vantagens de acampar na Tronqueira:

  • O carro fica do lado do acampamento e dá pra levar mais coisas pra passar a noite confortável.

Desvantagens:

  • É preciso acordar a meia noite (se é que você vai dormir) pra começar a caminhada;
  • São 6.9km seguidos. É difícil parar pra descansar porque começa a fazer muito frio, então precisa estar mais preparado.

DICA: Quando é permitido acampar no Terreirão, há burrinhos de carga que você pode alugar para levar suas coisas. Como tínhamos planejado acampar lá, achamos que iríamos andar quase 4km com barracas, colchões etc, por isso não levamos muita coisa. Se a gente soubesse desde o início poderíamos ter levado uma “estrutura” melhor, principalmente pra comida.

 

1ª parte da caminhada: Tronqueira ao Terreirão, 3.7km

Com as mochilas arrumadas, abandonados o camping e começamos a trilha a meia noite. Muita gente estava saindo nesse horário também, mas a trilha não ficou cheia de pessoas em nenhum momento. Quando a gente olhava ao redor, via várias luzinhas de grupos andando em trechos diferentes da trilha. É um momento muito único.

O céu estava fantástico, com uma lua cheia que iluminava todo o caminho, e alguns amigos nossos foram até sem lanterna.

O caminho é marcado por marcas amarelas nas pedras e alguns pedaços de madeira pintados. Porém, a tinta já está bem desbotada e em alguns lugares não dá pra saber onde é. Um dos amigos que estava com a gente usou o aplicativo Wikiloc com o percurso da trilha. Ajudou bastante em alguns momentos em que não vimos marcações.

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DICA: fique atento porque é fácil se perder. Não vá achando que dá pra seguir as outras pessoas: estávamos em um grupo de 6 e até entre a gente as vezes ficava uma boa distância e não víamos uns aos outros.

Esse primeiro trecho é bem mais fácil que o segundo. Tem mais partes planas e o começo tem um trecho de terra batida (a maior parte é de pedras). Mas gente, é difícil. Não vou mentir. E nem chegou a parte realmente difícil! hahaha

O trecho durante o dia
Um dos trechos durante o dia

Pra ilustrar o quanto é difícil, eu morro de medo de cobras e várias outras coisas quando Adriano e eu fazemos trilhas (inclua aí maníacos, outros bichos, trombas d’água…). Mas a caminhada foi tão difícil que em nenhum momento eu pude me dar ao luxo de pensar em uma cobra ou coisa do tipo. Simplesmente ia andando, muitas vezes nem vendo onde estava pisando direito. Por outro lado, a hipocondria, medo de ataques cardíacos e alguém morrer foi bem insistente e difícil de controlar haha.

Nós fizemos várias pequenas pausas no caminho, de poucos minutos, pra tomar água e descansar. Não dá pra ficar muito tempo parado porque o frio toma conta bem rápido.

Chegamos no Terreirão as 2h da manhã.

 

2ª parte: Terreirão ao topo, 3.2km

Quando chegamos no Terreirão, havia vários grupos de pessoas que haviam subido mais cedo esperando para continuar a caminhada. A dica é não subir muito cedo pro Pico, porque fica muito frio e é impossível ficar lá em cima esperando o nascer do sol.

Fizemos uma pausa de uns 15, 20min pra comer, encher nossas garrafinhas d’água e descansar um pouco. Aí já começamos a sentir muito frio e continuamos andando.

Essa parte é mais difícil e mais demorada do que a primeira. A trilha é basicamente de pedras e está sempre subindo. Há poucos trechos planos, que podem estar encharcados pelas nascentes de água próximas, então o cuidado é para não escorregar nas pedras e no barro. Essa foto foi tirada na volta, dá pra ter uma ideia de como é:

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Vá com uma bota de caminhada, que você já está acostumado a usar, e uma calça confortável e que permita muito movimento.

Uma curiosidade é que você não vê o pico durante boa parte da trilha, só quando está chegando bem perto. Ficávamos pensando “ah, é aquela montanha” e nunca era a tal montanha rs

O Pico lá no alto, à esquerda
O Pico lá no alto, à esquerda

Quando falta mais ou menos um 800m para o topo, fica extremamente difícil. A trilha fica íngreme e em alguns lugares é preciso subir apoiando com as mãos, quase uma escalada.

Essa parte foi muito difícil pra mim, porque eu já estava morta e parava pra descansar a cada 5min. Mas o lado bom é que em qualquer lugar que você para, vai ter uma paisagem maravilhosa pra admirar. O céu é incrível (vimos várias estrelas cadentes), você está cercado de mato e montanhas, vê as luzes das cidades no horizonte, as luzinhas de pessoas passando pela trilha, são momentos surreais.

Quando falta uns 100m você acha que vai morrer, porque fica olhando pro Pico mas NUNCA MAIS CHEGA. É tenso demais, eu diria que é o trecho mais difícil de todos. É praticamente uma escada de pedra totalmente irregular.

Com esse sofrimento final, chegamos no topo 5:30h e o céu já estava começando a clarear para o nascer do sol.

 

O Pico da Bandeira

Algumas pessoas gritaram quando chegaram lá em cima para comemorar e é muito engraçado se sentir próximo de quem completou esse “desafio” (ou metade dele ainda, haha). Eu simplesmente cheguei e não acreditei que estava naquele topo depois de 5:30h de caminhada durante a madrugada.

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Devia ter umas 100 pessoas acomodadas como uma platéia, esperando o sol nascer.

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DICA: ao chegar no topo a temperatura cai demais. Tire a blusa molhada de suor e troque por outra seca pra não esfriar o corpo. Levamos também um cobertor leve e foi extremamente útil. Até o sol nascer o frio estava congelante.

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O nascer do sol em si e a paisagem só tem como descrever pelas fotos. É estar em cima das nuvens e só.

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panorama

Ficamos mais ou menos 1h no Pico e começou a descer.

 

A volta

É difícil. Vou começar todos os parágrafos com “é difícil” pra você saber no que está se metendo antes de ir. Eu não tinha tanta noção de que seria assim.

Você pensa “ah, é descida, vai ser fácil”. Mas é uma descida íngreme cheia de pedras. Em alguns lugares é preciso sentar no chão pra descer e o cuidado pra não pisar em pedras soltas ou enfiar o pé em uma vala é enorme.

O clima estava friozinho e o sol não estava tão forte, o que ajudou a não ser tão sofrido. Todos sentiam dores em escalas e lugares variados, mas não dava pra parar porque não tinha outra opção.

Nosso ritmo de paradas foi muito maior na descida. No Terreirão há banheiros e pias pra encher garrafas d’água.

Expectativa X Realidade
Expectativa X Realidade

O caminho é cheio de cachoeiras lindas. Uns amigos que estavam com a gente até entraram em uma, apesar da água super gelada.

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morta
morta

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De madrugada nós não tínhamos muita noção dos lugares por onde passamos e por isso não lembrávamos do trecho da chegada. Quando não estávamos aguentando mais e nossas pausas já estavam em uns 15min cada, ficamos delirando que o acampamento estava perto, há apenas uns 300m. Um tempo depois passamos por uma placa com a distância de 1.5km. :O

É difícil, novamente!!!

 

O final – chegada no acampamento

Adriano e eu chegamos primeiro. Quando demos os últimos passos pra fora da trilha e chegamos no nosso acampamento, acho que não tinha acordado pro fato de que tínhamos feito aquilo. Era 12h. Levamos exatamente 12h pra completar o percurso.

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Sentamos em um quiosque, meio inertes, esperando o restante do pessoal chegar. Quando eles chegaram, foi o “momento emoção” da viagem. Nossa amiga levou um chocolate e nessa hora ela dividiu a barra com todo mundo. Nunca vi uma barra ir embora tão rápido! hahaha

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Todos esfomeados e mortos, mas com a sensação de “que conquista!”. Eu diria que foi um momento pleno, de apenas ficar lá sentindo o “peso” do que tínhamos feito. Uns dias depois eu ainda não acreditava que tinha feito aquilo tudo (acampado, feito uma trilha de madrugada, andado 14km). É uma coisa pra vida.

Desmontamos nossas barracas, colocamos as coisas no carro e do jeito que estávamos – ou seja, sujos e acabados – nos demos de presente um almoço num lugar bem legal pra comemorar.

Sobre as dores depois, foi muito variado em nosso grupo. Adriano ficou levemente cansado e eu tive muita dor nas coxas por uns dois dias, como se tivesse feito alongamentos eternos. Meus pés e tornozelos doeram bastante durante a caminhada. Em alguns dias todo mundo já estava 100%.

A dica geral é tentar se preparar fisicamente antes de ir – se você não faz NENHUM exercício normalmente, vai ser muito tenso. Em nosso grupo todo mundo já fazia alguma atividade física de pessoa normal (ou seja, ninguém fitness haha), mas mesmo assim não foi fácil. Pra gente, funcionou ir “devagar e sempre”. Não gaste toda a energia no começo, porque essa é só a primeira parte e ainda tem a volta. Encontramos pessoas de todas as idades na trilha e em todos os níveis, desde morrendo a “com cara boa” hahaha.

A dica final é VÁ, MAS VÁ PREPARADO!

 

Depoimentos de quem subiu o Pico da Bandeira

“É uma trilha que exige preparo, mas chegar lá e ver aquela vista é emocionante. Faz valer a pena qualquer esforço e algumas lágrimas de dor inclusive.” — Bernardo Ruas, um sedentário que chorou de dor, mas concluiu a trilha.

“Eu acho que não faria essa trilha de novo, porque o caminho é realmente muito cansativo e longo. Como já conheço, acho que ficaria mais maçante e demoraria mais. Mas acho que é uma coisa que tem que fazer uma vez na vida. É indescritível os momentos que você passa andando no meio do nada, só o céu, o mato, as montanhas…” — Rosi, pessoa que não acampa e tem medo de trilhas.

“É uma subida que não é pra qualquer um, mas que se você tiver o mínimo de preparo físico você faz sem problemas. A parte que eu mais passei aperto foi o frio na hora que chegamos no Pico. Jogar bola e cobrir um casamento fotograficamente cansa muito mais.”  — Adriano, pessoa que não sabe sentir frio e que se recuperou incrivelmente rápido.

 

O que levar para a subida ao Pico da Bandeira

Leve o essencial pra não ficar carregando peso à toa na mochila:

  • blusa/calça segunda pele
  • blusa mais leve pra usar na volta, quando fizer calor
  • blusa pra trocar quando chegar no topo, pois a sua vai estar molhada de suor
  • lanches como barra de cereal, banana, castanhas, chocolate e sanduíches
  • garrafa pra água (não precisa ser grande porque dá pra encher no meio do caminho)
  • lanterna (nossos amigos levaram lanterna de cabeça e a gente já quer pra próxima vez, é muito útill)
  • câmera
  • remédios básicos
  • protetor solar

O que levar para o acampamento

O básico para passar uma noite:

  • barraca
  • colchão inflável
  • cobertor
  • fogareiro com álcool em gel cristal
  • fósforo ou isqueiro
  • lanternas
  • canivete
  • comida (fomos desprevenidos e nos viramos com o que achamos na cidade. Levamos café solúvel, chá, cup noddles e “comidas frias” como sanduíches. Por lá tinha gente preparando altas refeições :P)
  • utensílios como leiteira de alumínio, canecas, garfo/colher e tigelinhas para comer (há pias de cozinha na área)
  • itens de higiene (os banheiros não tem nada, e lembrando que a água dos banheiros é gelada caso vá tomar banho)

rosi

Adora viajar, fotografar e escrever. Nos últimos anos aprendeu a gostar de mato, sol e desapegar de malas gigantes. Dramática, mas não tão fresca quanto parece =P